quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

A Materialização do Óbvio


A sequência clímax de ‘Black Swan’ é aquela em que a bailarina Nina, enfim incorpora toda a sensualidade, volúpia e furor de um cisne negro, nessa que é a melhor cena de Natalie Portman no filme, olhos vermelhos, expressão forte, arrebatadora, enquanto dança até aos poucos ir se transformando fisicamente em um cisne negro, e suas asas largas e imponentes.
Não bastava a Darren Aronofsky o belíssimo plano de Natalie Portman demonizada já completamente transfigurada, a personificação do cisne, ele insiste em filmar a transformação física, em dar corpo ao que já estava na tela. É a materialização do título, que por si só já era introdução suficiente para entrarmos no mundo obsessivo de Nina pelo balé. Cisne Negro é todo materialização de sentimentos que nunca realmente encontramos na tela.
Culpa muito de um certo psicologismo reducionista que parece transformar personagens em manuais, pontuando toda a narrativa com uma série de respostas para questões que nunca de fato existem no filme. Não atoa o personagem de Vincent Cassel logo de início já define toda a psiqué da protagonista, garotinha frígida e mimada, que deve se abrir e revelar o cisne negro que existe dentro de si. Personagem unidimensional que nunca assume a sua complexidade, que quer no máximo ser bidimensional, branco e preto. Por isso, as roupas de Nina serão sempre brancas, e as de Lilly pretas, a caixinha de música e o toque do celular repetirão incessantemente “O Lago dos Cisnes”. Mesmo a caracterização e interpretação de Natalie Portman se revestem dessa obsessão pelo óbvio que toma conta do filme. Seu tom de voz, postura, seu rosto melancólico e sofrido, cada gesto; tudo busca enfatizar o que já é muito claro na tela, dando pouco ou nenhum espaço para o mistério, para a sugestão.
Essa postura didática assumida por Aronofsky  - e por que não, também por Cristopher Nolan em A Origem - acaba sendo uma contradição ao famoso pensamento kantiano que diz que, no ato de conhecimento, a imaginação trabalha para a inteligência, enquanto na arte, a inteligência trabalha para a imaginação. Em ‘Cisne Negro’, não há espaço para a imaginação. É a negação do que defendia Merleau-Ponty quando estudava os mecanismos do cinema e sua relação com a psicologia moderna, na escolha entre o que se diz e o que se cala, na criação de uma máquina de linguagem que coloca o espectador em um determinado estado poético. Ou Jean Epstein quando defende a estética da sugestão ou o “teatro da pele”; o sentido que já está na superfície e não atrás da face do homem. Ambos acreditam no poder do espectador de decifrar o mundo, no poder do cinema de estimular a percepção, de instigar nossa inteligência, nossos sentidos. Aronofsky por sua vez não tem fé no cinema, não acredita no poder sugestivo de suas imagens.
Nesse sentido me intriga um pouco essa tão falada relação com os filmes de Roman Polanski – principalmente ‘Repulsa ao Sexo’ e ‘O Bebê de Rosemary’ – que sempre primaram pela sugestão, pelo não mostrar em prol de toda uma orquestração perfeita de clima e suspense para com isso aguçar e desafiar ainda mais a mente do espectador. Era o que fazia de seus filmes tão perturbadores e viscerais. Para Polanski a dúvida, o mistério, estimulam muito mais a imaginação do espectador. É a fé na imagem, a verdadeira alma do cinema.
Aronofsky acaba esquecendo que é através da percepção, dos sentidos, que compreendemos o real significado do cinema. Assim, ao materializar o invisível, ‘Cisne Negro’ retira de si o que para o cinema é primordial: sua alma. Sobra o cadáver, opaco, vazio, sem vida.

4 comentários:

Fernando disse...

Fala Parrode,

Aqui é o Nando, irmão do Marcelinho. Entrei no seu blog pelo post do Lucas no facebook...
Achei sensacional, muito bom mesmo... Parabéns!
Abraço

Rafael Castanheira Parrode disse...

pô Nando, vlw d+! continue lendo ae.
abço

Fabrício Cordeiro disse...

E aí, Rafa! Como já adiantei no twitter, acho o filme obra-prima. Sobre essa "materialização do óbvio", eu admiro justamente pelas dosagens de terror do filme.

Particularmente, acho um mix perfeito de terror psicológico e terror-ponto. Como terror psicológico, mais as sugestões, paranóias etc, o que não é exatamente explicitado; e o terror-terror é isso, é mostrar, monstrificar, e aí eu acho brilhante levar até as últimas consequêncuas com pés, penas, asas, pescoço, fazendo dela quase uma wereswan.

Anyway, meu texto demorou mas saiu lá no blog. Braços!

Rafael Castanheira Parrode disse...

pois é Fabrício, mas pra mim fica a questão de que o Aronofsky não consegue chegar a nenhum dos extremos que ele tateia. Nem do terror físico de um A Mosca por exemplo, muito menos de um terror psicológico (e nesse sentido, mais sugestivo) de um Repulsa ao Sexo. O filme fica à deriva nesse desequilíbrio do Aronofsky em acreditar no seu material e daí radicalizar seu filme nesse sentido. Acho essa transformação da Nina em Cisne Negro uma sequência que usa da catarse pra convencer o espectador. Visualmente pode até ser bonita, mas acaba diminuindo o potencial perturbador do filme. Acho que as opções utilizadas pelo diretor banalizam d+ o material do filme, e a coisa acaba desandando bastante nessa necessidade de ser ao mesmo tempo um "terror psicológico" (e tdas as implicações desse rótulo) e tão auto-explicativo, tão inconsciente no poder sugestivo do texto e das imagens. Enfim, acho catártico - e isso pode despertar sentimentos apaixonados de alguns cinéfilos - mas é um filme tão chato, frágil e mecâncio quanto a própria personagem Nina.