terça-feira, 13 de outubro de 2009

Aquele Querido Mês de Agosto


Cópia ficou uma semana em cartaz em Goiânia e quem viu sabe bem da beleza que é esse filme de Miguel Gomes. Se Tarantino fala sobre o poder transformador do cinema em seu Bastardo Inglórios, Miguel Gomes nos confronta com a beleza do criar. Do mergulho nas nuances do mundo para se criar um universo de cinema, de ficção. Do caminho tortuoso e lindo que é conceber um filme. O cinema deve estar todo orgulhoso de si por duas tão belas declarações de amor a ele!

Master Class do Tarantino


Um filme que tem a capacidade de trazer à tona nomes como os de Ernst Lubiticsh, Sergio Leone e Seijun Suzuki só pode ser no mínimo genial, e é o que de fato acontece com Bastardos Inglórios, novo filme do já mestre Quentin Tarantino. De Lubitisch lembro bastante do maravilhoso "Ser ou Não Ser" com um Hitler histérico e chorão, numa caracterização deliciosamente burlesca do general alemão. De Leone, óbvio, há aquela sequência inicial maravilhosa, num jogo de reenquadramentos impressionante ao som de "Dopo la Condanna" do Morricone. De Suzuki, a fé na ficção como combustível para a verdade, do descortinamento da história, da fantasia e do exagero como ferramentas para se atingir o êxtase. É impressionante o diálogo que Tarantino consegue manter com suas platéias, uma cumplicidade raríssimas vezes alcançado por algum diretor.

A paixão de Tarantino pelo cinema é tamanha, que Bastardos Inglórios não poderia ser outra coisa senão a sua mais apaixonada declaração de amor a 7ª arte. Ele acredita no poder transformador do cinema, no combustível maravilhoso e incediário que ele pode ser, na sua capacidade de transformar pessoas e por que não, o mundo? E é lindo acima de tudo como Tarantino transforma o que poderia ser um monte de referências vazias e auto-indulgentes num espatáculo revisionista do que o cinema já foi e ainda pode ser.

Maravilhoso também poder conhecer esses personagens nascidos da mente desse cineasta intrincado. Afinal, como poderíamos ter a chance de conhecer tão bem o Coronel Hans Landa, personagem riquíssimo, interpretado por um ator extraordinário como Christoph Waltz? Ou Shossana e seu olhar triste mas muito forte, interpretada pela lindíssima Melanie Laurent?

E quando citei 3 grandes cineastas inspiradores de Tarantino esqueci de um tão ou mais importante que deve estar dando pulos de alegria com esse filme: Samuel Fuller! Quem viu "The Big Red One" sabe do que eu to dizendo...

E dizer que esse é disparado o melhor filme do ano é chover no molhado! Provavelmente deve ser mesmo é melhor filme da década!

sábado, 26 de setembro de 2009

Mostra de Cinema Português

Minha primeira tentativa como curador de cinema rendeu essa Mostra de Cinema Português, que tem inicio no dia 28 de setembro e vai até o dia 05 de outubro. Na seleção, a intenção foi fazer um painel de um cinema radical que se faz em Portugal, corajoso e ousado, como poucos no mundo hoje! Afinal, não é qualquer país que tem como principais representantes de cinema dois mestres supremos como Manoel de Oliveira (aqui com o épico "Non") e João César Monteiro (um dos grandes pensadores do cinema contemporâneo). Da "nova guarda" teremos os já consagrados Pedro Costa, com seus dois primeiros filmes, "Casa de Lava" e "Ossos", João Botelho com o buñuelesco "Tráfico" e João Pedro Rodrigues (de "Fantasma") com o seu "Odete". Pra finalizar, "Uma Abelha na Chuva", clássico indispensável de Fernando Lopes.

Apesar das cópias serem todas em DVD, a projeção está bem mais digna que muita cópia da Rain, e por isso, creio eu, não será empecilho pra ninguém que queira prestigiar a Mostra.

Abaixo segue programação:

Dia 28 - Casa de Lava
Dia 29 - Odete
Dia 30 - Tráfico
Dia 1 - Uma Abelha na Chuva
Dia 2 - Vai e Vem (excepcionalmente, sessões às 12h, 15h e 19h30)
Dia 3 - Branca de Neve
Dia 4 - Ossos
Dia 5 - Non ou A Vã Glória de Mandar

Observação: os filmes Odete, Tráfico, Ossos e NON, estão sem legenda (somente com o português de Portugal).

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

The Hurt Locker (Guerra ao Terror)


Descaso total dessas distribuidoras brasileiras que lançam o melhor filme sobre a guerra do Iraque (sim, melhor inclusive que o potentíssimo Redacted de Brian de Palma) direto em DVD - o mesmo acontece com Giallo, novo filme do mestre Dario Argento.

Kathryn Bigelow faz um filme agressivo, tenso, mas acima de tudo humano, centrado em apenas 3 personagens que pertencem a um esquadrão anti-bomba no Iraque. Impressiona e muito o crescente clima de tensão que vai se estabelecendo ao longo do filme. Cada mínimo objeto de cena parece que vai explodir a qualquer momento.

Mas o grande trunfo do filme pra mim, é não se render a discursos políticos e cravar seus afiados dentes na cabeça de um homem que aos poucos vai se viciando na entorpecência da guerra. É fácil, das melhores coisas que vi esse ano, sem sombra de dúvida!

A plenitude do cinema de Gray


Amantes é pra mim o melhor filme de James Gray. O que não é pouco (sou fá incondicional de Fuga para Odessa, Os Donos da Noite e um pouco menos entusiasmado de The Yards). Aparentemente o mais simples de seus 4 filmes, trabalhando agora outro gênero que não o policial, Gray consegue atingir o supra sumo de seu talento como diretor, como cineasta. Exatamente por trabalhar com esse mínimo de elementos, essa singeleza de argumento, Gray tem tempo suficiente pra construir imagéticamente seus personagens e com isso transbordar de vida cada fotograma desse seu novo filme. Emocionante Joaquin Phoenix em cena, quase que um co-autor do filme ( sem falar de Isabella Rosseline, claro). Pena que a cópia em Rain exibida no Bouganville é das coisas mais vexatórias que eu já vi na vida!

quinta-feira, 2 de julho de 2009

A Lógica do Horror

Tenho tido uma série de experiências muito bem sucedidas com filmes de terror contemporâneos, e é impressionante como o gênero tem nos proporcionado filmes tão relevantes dentro da cinematográfia mundial atual. Filmes como o sueco Deixa Ela Entrar, os japonêses Cure e Pulse, os franceses A Invasora e Calvário e claro americanos já consagrados como Diário dos Mortos, Fim dos Tempos e O Nevoeiro, são exemplos claros de como o mundo tem sido enxergado pelo cinema de horror.

Vejamos Deixa Ela Entrar, do sueco Tomas Alfredson. Belíssima incursão no gênero, é impressionante como o filme lida com seus clichês de maneira tão natural, tão simples e delicada. Primeiro por que há ali algo que é comum a grande maioria dos filmes citados acima e principalmente no cinema de horror não hollywoodiano feito atualmente. Há uma diluição de roteiro em prol da misé-en-scéne. A decupagem é a principal ferramenta nesse sentido, e todas os mecanismos que dela nascem. Em Deixa Ela Entrar, fica visível uma série de conceitos que estéticamente colocam o filme num patamar bem diferenciado do que vem sendo produzido em terror comercialmente. O que mais impressiona a priori é o uso incisivo do fora de campo, o mostrar e não mostrar. É claro que veremos ali muito sangue, membros decepados, mas eles sempre vão surgir de fora, de um outro espaço que a câmera não se atreve a registrar, e é daí que nasce o verdadeiro horror.


Mas e o filme como registro de seu tempo? Ah sim, há ali para além do horror a fábula sobre a infância, sobre o turbilhão de emoções, descobertas e inquietações que todos nós um dia passamos. E centenas de outros filmes já trataram desse assunto. A diferença é que Alfredson , sempre buscando a sutileza e a sugestão, apoiando-se principalmente em olhares, e claro, na premissa de horror, trará para dentro do filme algo que outras obras não almejam e nem conseguem facilmente: o registro do âmago, do que se passa dentro de nós. E é ai que reside a beleza do filme.

Para Kiyoshi Kurosawa o terror também é apenas um subterfúgio para o registro de nossas inquietações. Pensemos em Pulse, filme que de forma sinistra aborda um tema igualmente sinistro mas não menos revelador e importante: suicidios coletivos na internet. Como mestre que é Kurosawa não faz um filme fechado nesse tema. Para além disso, cria uma obra extremamente humana, existencial, sobre o fim das relações afetivas, sobre a frieza do mundo, incomunicabilidade, sobre a digitalização do mundo e por que não, da morte. É um filme apocalíptico, assim como é também O Nevoeiro, Fim dos Tempos e Diário dos Mortos.


Mas o que impressiona verdadeiramente nos filmes de Kiyoshi, é a aproximação do real, do banal, ao fantástico. Não raro, seus filmes ditos "realistas" (Sonata de Tóquio e Liscense to Live) conseguem captar quase que invisivelmente toda uma aura de fantasia que estão inerentes a eles. Não vemos nada, mas a magia perpassa por cada sequência.

Volto então a falar um pouco sobre a sugestão dentro do cinema de horror. Se em Deixa Ela Entrar e também em alguns filmes de Kurosawa ela era uma das principais ferramentas para se extrair o terror, no novo cinema de horror produzido na França essa é uma palavra banida. Todos os filmes franceses do gênero se destacam por explorar de maneira "pornográfica" cada centímetro de pele e sangue cortados. Essa "pornografia da violência" porém não me parece gratuita. Diferentemente de filmes com Jogos Mortais e O Albergue, a violência não é o fim, mas o meio para se chegar ao fim. Vejamos A Invasora (ou mesmo Alta Tensão de Alexandre Aja e Calvaire de Fabrice Du Welz). Poucas vezes a idéia de violência foi tratada de maneira tão doentia como aqui, mas o filme em si, para além da violência, me soou como um impressionante delírio de uma grávida, de uma possível depressão pré-parto (ou pós), e de todas as dificuldades e desdobramentos que imagino ser gerar uma vida dentro de si. Mulheres sabem bem, mas recomendo com força para homens que verão na carne o que pode ser isso. Nesse sentido o filme não tem a menor intensão de fazer concessões, visto que para atingir o ponto certo, o diretor Alexandre Bustillo deveria lançar mão do máximo de ultra-violência possível para atingir o efeito desejado. É o sangue e a carne como metáfora da vida!


Resta pensar por fim no cinema norte-americano e o que de relevante ele tem produzido neste sentido. Romero é referência óbvia quando se pensa em cinema de horror em qualquer parte do mundo desde a década de 70. Mas não é que um de seus melhores filmes tenha surgido a essa altura do campeonato?! Em 2008 alguns filmes se prontificaram a questionar a relevânica da imagem em tempos de internet e globalização. Cloverfield de maneira bem rasteira mostrou que basta uma câmera na mão e um upload na internet, e podemos ver tudo o que de mais absurdo acontece no mundo. Redacted indo mais além, nos disse que as informações e imagens disponibilizadas pela rede, nos mais diferentes formatos, podem nos levar à verdade, ou à mentira. Mas foi Diário dos Mortos, quinto filme da sua celebre série de zumbis que mais levou adiante uma complexa discussão sobre o poder de manipulação da imagem nos tempos de hoje. E não só! Carga humana que Romero sempre carregou em seus filmes, volta aqui de maneira devastadora e também, apocalíptica.


Apocalíptico também são Fim dos Tempos do atual mestre do terror americano M. Night Shyamalan, e O Nevoeiro de Frank Darabont. Shyamalan como todos sabem bebe muito da fonte de Kiyoshi Kurosawa (e não esqueçamos, Tomas Alfredson e seu Deixa Ela Entrar também se sacia dessa mesma água), misturando de maneira indefectível realismo e fantasia, sempre buscando o horror do banal, do íntimo. O interesse pelo extra-campo é genuíno em seus filmes, sempre nos colocando num jogo entre o ver e o imaginar!E o roteiro é diluido para dar lugar a ambiências e não para tentar dar uma lógica interna ao filme(que pra mim é completamente dispensável, principalmente se pensarmos num gênero como o terror); para Shyamalan, a "verdade" (verdade fílmica) está na imagem - e suas infinitas possibilidades - e não na lógica. Seus filmes, mais especificamente Fim dos Tempos parecem querer dar conta de uma série de questóes caras a sua obra como relações pessoais, família, incomunicabilidade, fé! E Shyamalan fantasia seus filmes como gêneros (terror, hqs, sci-fi, magia) para extrair disso, algo para se falar sobre cinema, sobre vida, mas principalmente sobre a fé nisso tudo.



Surpreendentemente é o que Darabont faz também em O Nevoeiro. Se há a princípio toda uma preocupação em "não mostrar", na segunda metade do filme, tudo é mandado as favas e ele nos confronta com o absurdo do "ver". É um retorno a uma idéia antiga de filmes B que foi muito deturpada ao longo dos anos, de usar o grafismo do óbvio, para nos mostrar as sutis entrelinhas da vida. O Nevoeiro fala muito sobre sociedade e religião e o apocalipse é consequência de uma constatção que está ali na tela.

Se vermos todos esses filmes juntos, veremos ali as inquietações desses artistas diante do mundo e que me interessam muito como espectador de cinema. Inquietações não só para com o mundo, mas também para com a arte. E é ai que reside a grande magia do cinema (principalmente do cinema de horror); na possibilidade de poder enxergar o mundo através do absurdo, do ilógico, do irreal. Pra quê lógica nisso tudo?

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Goiânia Ouro homenageia Manoel de Oliveira

Começou ontem a Mostra "O Cinema de Manoel de Oliveira" oferecida pelo Instituto Camões juntamente com a Secretaria de Cultura, mostra que reúne 9 de seus 50 filmes traçando um breve mas muito significativo panorama da carreira desse que é o maior cineasta vivo da atualidade. Abaixo segue a seleção dos filmes dessa Mostra que é nada menos que imperdível!


Leonor Silveira em Vale Abraão, adaptação de Madame Bovary em cartaz na Mostra.



Um Filme Falado (2003)* * * * *
O Princípio da Incerteza (2002) * * *
Porto da Minha Infância (2001) * * * *
Vou Para Casa (2001) * * * *
Palavra e Utopia (2000) * * *
A Carta (1999) * * * * *
A Caixa (1994) * * * *
Vale Abraão (1993) * * * * *
Non ou a Vã Glória de Mandar (1990) * * * *

Programação da Mostra:

http://www.goiania.go.gov.br/sistemas/snger/asp/snger01010r1.asp?varDt_Noticia=02/02/2009&varHr_Noticia=08:30

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Ainda sobre o senso crítico...

Na Contracampo há um interessante texto do Luiz Carlos Oliveira Jr. sobre os rumos da crítica brasileira, da sua relação com a publicidade e que reiteram muito da minha visão sobre o novo filme do Fincher e sobre essa falta de senso crítico - não só por parte da crítica em si - da sociedade como um todo!


http://www.contracampo.com.br/92/pgpublicidadevenceu.htm

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Benjamin Button e o senso crítico...

Como é fácil manipular platéias hoje em dia! O novo filme do Fincher é uma enganação do começo ao fim, mas todo mundo compra como "filme-mensagem" - desde já lembrando uma frase de quem desconheço a autoria; "cinema não é fax pra passar mensagem" - edificante, sobre "envelhecer". O que mais me chamou atenção nesse filme é como a publicidade se faz presente da maneira mais radical na carreira de David Fincher. É claro que como publicitário que é, seus filmes sempre carregaram esse fardo marketeiro, mas sempre de uma maneira mais sombria e de certa forma, estimulante. Aqui, todos os cacoetes de um filme publicitário se fazem presentes, e o roteiro não ajuda em nada ao transformar a vida de Benjamin Button em uma odisséia épica, repleta de lirismo barato (aaahh, o beija-flor), com tema relevante pra conquistar platéias que consideram o Oscar o grande termômetro de avaliação do melhor do cinema produzido no ano. Mas pena mesmo é constatar que um cineasta vindo de uma obra tão forte e impressionante como Zodíaco (o menos publicitário e melhor de seus filmes) e que parecia ser uma tremenda evolução na sua carreira, regrida ao ponto de fazer um filme tão preguiçoso e com um final tão cafona como esse Button.

O poder transformador de "A Troca"


O que é A Troca senão um filme conceito? Conceito num sentido bem radical da palavra por que o que faz Clint Eastwood nesse seu novo filme, além de trazer à tona diversos fantasmas da história americana (o que ele vem fazendo abertamente desde Poder Absoluto de 1997) é subverter uma série de códigos do cinema clássico americano num reprocessamento um tanto vanguardista dessa fórmula centenária de se fazer "cinema narrativo".

Comecemos então pelo título do filme: Changeling! Mudança, troca, confusão... Clint que, longe de querer elevar seu cinema à perfeição, prefere se modificar a cada sequência, modificar o mundo (como faz Christine Collins) ou modifcar o cinema, sua narrativa, alterar o formato da tela, as cores da fotografia, a estrutura e os códigos de gênero, as atuações. Tudo em "A Troca" parece respirar e se encher de vida a cada nova sequência. Afinal flashbacks surgem do nada, sem nenhum aviso, a trama começa a se dividir em 2 ou 3 outras e o filme vai se metamorfoseando, se alterando, se reiventando como reflexo das mudanças do mundo provocadas por Christine ou por nós mesmos em nosso dia-a-dia. Daí me pego pensando em Clint Eastwood como um experimentador e não como "o último cineasta americano clássico vivo", e seu cinema se aproxima de nomes distintos como Apichatpong Weerasethakul e Alain Resnais, cujo poder de transformação se estabele no cerne de suas obras, por mais distintas que sejam elas. Seria uma comparação um tanto vaga, mas se pensarmos em palavras como fantasmas, memória, tempo, mudanças, revolução, a identificação passa a se tornar mais evidente.

Mas e o melodrama? Christine Collins la pelas tantas torce para que o filme "Aconteceu Naquela Noite" vença a edição do Oscar daquele ano. Ora, quem é Frank Capra senão o grande mestre do melodrama da era de ouro hollywoodiana? Há muito de Capra ali de fato, mas a comparação mais acertada que tenho visto por ai é a com Fritz Lang, que entrou para o cinema americano após fazer "M" que é nada menos que um filme sobre um assassino de crianças, e se firmou fazendo thrillers e suspenses noir, além de alguns melodramas, aliás donos dessa força transformadora já tão batida aqui nesse texto.

Ainda nesse sentido, a justificativa para a escolha de Angelina Jolie parece bem acertada, senão indispensável. Antes de pensarmos em sua interpretação é importante analisar sua caracterização. Esquálida, frágil, curvada para frente, branquíssima... Angelina assume ali o papel de uma menina incapaz de entender o mundo a sua volta, apesar de carregar consigo uma força incandescente de transformação. Essa dualidade entre força e fragilidade é grande trunfo de sua atuação, que mais superficialmente pode ser vista como histérica em alguns momentos ou absurdamnente fria e contida em outros.

Fica claro ao final a busca de Eastwood pela beleza da imperfeição, num filme tão abertamente dissonante, e por isso mesmo tão humano e profundo. Seja como reflexão da arte, seja como reflexão de mundo.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Uma Garota Dividida em Dois


Há alguns anos Claude Chabrol vem trabalhando em família, dividindo os créditos de seus filmes com sua esposa (roteirista), sua filha (cenário, figurino...), seu irmão (música) e rendendo filmes irregulares mas ainda assim cheios de interesse por seus personagens, de uma vontade latente de falar sobre a sociedade francesa, sempre com um quê hitchcockiano que só ele sabe trabalhar (muito longe das referência diretas de um De Palma por exemplo) dosando de maneira surpreendente sátira e suspense nesse que é possivelmente seu melhor filme desde Mulheres Diabólicas.

Uma Garota Dividida em Dois é uma metáfora absolutamente corrosiva sobre moralismo, puritanismo, hipocrisia, que faz belo par com A Última Amante de Catherine Breillat, mas que consegue ir muito além, graças aos diálogos impagáveis e a uma entrega profunda do filme ao caricato, ao extremo e as vezes até ao non-sense, sempre dando aos personagens a liberdade de se assumirem como bem quiserem, seja como reflexos ou representações das mais diversas camadas sociais, dilemas e comportamentos, mas sobretudo dessa complexa divisão entre verdade e mentira. Da mentira que há na verdade ou da verdade que há na mentira.

O filme abre com Charles, escritor, artista, libertário, já beirando os 50, que vive dividido entre a esposa "Santa", e suas aventuras sexuais com os amigos em um clube de swing. Corte seco para Gabrielle, jovem e bela garota da meteorologia e que desperta o interesse de grande parte dos homens, mas se interessa única e compulsivamente por Charles, por quem guarda enorme admiração e devoção, enxergando-o como um misto de pai (que nunca teve, sua mãe foi abandonada quando ainda era criança) e amante. Há por último Paul Gaudens, jovem e rico, que se apaixona por Gabrielle à primeira vista e fará de tudo para tê-la consigo.

O jogo de Chabrol, como não poderia deixar de ser é o da divisão. Não só a divisão de interesses dos personagens ou da narrativa em si, mas um jogo fortemente imagético de corte, de uma cisão quase cirúrgica. Em vários momentos vemos Gabrielle de alguma forma partida ao meio, seja através de reflexos no espelho, seja de algum truque de câmera, ao mesmo tempo que grande parte dos personagens se vêem diante de diversos dilemas também dividos por essa serra cortante que é o destino. Fato é que Gabrielle apaixonada por Charles irá superar algumas convenções e embarcar num jogo sexual com o escritor que ao bel prazer, fará dela uma espécie de brinquedo sexual, fuga para a santice de seu casamento ou para a reafirmação dele como macho, ainda que de meia idade. Charles porém nunca pensou em abandonar a esposa e acaba deixando Gabrielle sem chão. É ai que entra Paul (Benoît Magimel irrepreensível). Representação quase cartunesca de uma certa aristocracia européia, usa roupas extravagantes, um cabelinho chanel engraçadíssimo e com um comportamento na maioria das vezes explosivo, mas sempre com um humor meio agressivo, Paul se apaixona por Gabrielle e usará de todas as suas armas para conquistá-la, seja o dinheiro, seja a violência.

À medida que o filme prossegue, a teia de relações entre os personagens vai se complexificando. O passado dos personagens vai sendo revelado e Chabrol vai conduzindo seu filme para o cheque-mate decisivo. Em um dado momento, após revelar de maneira bem crítica e maldosa alguns aspectos da vida de Paul Gaudens, Charles é interrompido pela esposa que diz ser incapaz de julgar qualquer pessoa que seja. Essa incapacidade de julgar Claire (esposa de Charles) é a diese do filme, o fio condutor desse questionamento sobre o limite entre verdade e mentira e suas consequências, sobre esse moralismo burguês e um fantasioso jogo de aparências. Assim, a garota acaba sendo dividida em dois: da cintura pra baixo, o sexo sem limites, a incapacidade de se comunicar ou mesmo de raciocinalizar, o animalesco. Da cintura pra cima a consciência, as emoções afloradas, as dúvidas, os medos, o enfrentamento... O final do filme é impecável, com Gabrielle externalizando seus sentimentos, numa única lágrima que escorre de seu rosto enquanto ela é cortada ao meio. Metáfora poderosa, num filme que nos faz pensar num Chabrol em plena forma aos 78 anos de idade, um artista em grande momento criativo, num filme sobretudo perturbador, mas também libertador.

domingo, 12 de outubro de 2008

Mostra SP 2008 - Line-up


Saiu lista parcial de filmes confirmados pra Mostra desse ano. É claro que há ainda vários títulos a se confirmar - organização do evento prometeu 560 filmes e até agora só foram confirmados 400 - mas algumas ausências foram pesarosamente sentidas levando-se em conta o Festival do Rio, como os novos filmes do mestre Eric Rohmer, Shinji Aoyma, Hong Sang-soo, Derek Jarman, Skolimovski, Mike Leigh, Kitano, além de outros ainda inéditos no Brasil como 35 Rhums da Claire Denis, Shirin do Kiarostami além dos novos de Johnny To e da Ágnes Varda.
Fora isso a Mostra tem nomes fortes na sua seleção como os novos de Olivier Assayas, Jia Zhang-Ke, Brillante Mendoza, Soderbergh, Guy Maddin e Raymond Depardon, além de Phillipe Garrel, os irmãos Dardenne, Desplechin, Miguel Gomes, Bressane, Kawase, Wong Kar Wai e Kyioshi Kurosawa.
Importante também ressaltar as retrospectivas de Ingmar Bergman, Kihachi Okamoto (cineasta que não conheço, mas já ouvi coisas muito boas) e Hugh Hudson, a projeção da série Berlin Alexanderplatz do Fassbinder, além de seleção de filmes feita por Win Wenders que conta com filmes do Ozu, Godard dentre outros!

Aqui lista da Mostra Perspectiva:
(destaques em negrito)

- 10+4 (DAH BE ALAVEH CHAHAR…), de Mania Akbari
- 24 CITY (ER SHI SI CHENG JI), de Jia Zhang-ke
- 3 ESTAÇÕES (3 SAISONS), de Jim Donovan
- 32 A, de Marian Quinn
- 45 RPM, de David Schultz
- A CANÇÃO DOS PARDAIS (AVAZE GONJESHK-HÁ), de Majid Majidi
- A DANÇA DO ENCANTAMENTO, de Adoor Gopalakrishnan, Brigitte Chataignier
- A DUQUESA (THE DUCHESS), de Saul Dibb
- A ERVA DO RATO, de Julio Bressane
- A FESTA DA MENINA MORTA, de Matheus Nachtergaele
- A FLORESTA DOS LAMENTOS (MOGARI NO MORI), de Naomi Kawase
- A FRONTEIRA DA ALVORADA (LA FRONTIÈRE DE L’AUBE), de Philippe Garrel
- A GUITARRA (THE GUITAR), de Amy Redford
- A MUSA (DE MUZE), de Ben Van Lieshout
- A PRINCESA DE NEBRASKA (THE PRINCESS OF NEBRASKA), de Wayne Wang
- A RAINHA CÉLIA (CELIA THE QUEEN), de Joe Cardona, Mario de Varona
- A ROTA DO GUERREIRO (DER PFAD DES KRIEGERS), de Andreas Pichler
- A VIDA MODERNA (LA VIE MODERNE), de Raymond Depardon
- ABAIXANDO A MÁQUINA, de Guillermo Planel, Renato de Paula
- ABSURDISTAN, de Veit Helmer- ACNE, de Federico Veiroj
- ADEUS ÀS MÃES (ADIEU MERES), de Mohamed Ismail
- ADORAÇÃO (ADORATION), de Atom Egoyan
- AFRICA UNITE, de Stephanie Black- AIR, de Ryotaro Muramatsu
- ALEXANDRA, de Alexander Sokurov
- AMIGOS DE RISCO, de Daniel Bandeira
- APENAS O FIM, de Matheus Souza
- APPALOOSA – UMA CIDADE SEM LEI (APPALOOSA), de Ed Harris
- AQUELE QUERIDO MÊS DE AGOSTO, de Miguel Gomes
- AS OFICINAS DE DEUS (LES BUREAUX DE DIEU), de Claire Simon
- AVIADORES, de Herbert Brödl
- BERLIN CALLING, de Hannes Stöhr
- BOLO DE BOTA (THE BOOT CAKE), de Kathryn Millard
- CAFÉ DOS MAESTROS (CAFE DE LOS MAESTROS), de Miguel Kohan
- CAIXA DE PANDORA (PANDORANIN KUTUSU), de Yesim Ustaogu
- CANÇÃO CUBANA (COMME À CUBA), de Fernand Bélanger, Louise Dugal, Yves Angrignon
- CANÇÃO DE BAAL, de Helena Ignez
- CAPITÃO ABU RAED (CAPTAIN ABU RAED), de Amin Matalqa
- CAVALO DE DUAS PATAS (ASBE DU-PA), de Samira Makhmalbaf
- CHE, de Steven Soderbergh
- CHEVOLUTION, de Trisha Ziff, Luis Lopez
- CHOKE, de Clark Gregg
- CIDADE MARAVILHOSA (WONDERFUL TOWN), de Aditya Assarat
- CILADA AMERICANA (THE AMERICAN TRAP), de Charles Biname
- CINZAS DO PASSADO REDUX (DONGXIE XIDU), de Wong Kar Wai
- COMO DIZ A BÍBLIA (FOR THE BIBLE TELLS ME SO), de Daniel Karslake
- CONFISSÕES DE SUPER-HERÓIS (CONFESSIONS OF A SUPERHERO), de Matt Ogens
- CONTRATEMPO, de Malu Mader, Mini Kerti
- COQUELICOTS, de Philippe Blasband
- CORRA POR SUA VIDA! – DE JUNKIE A IRONMAN (RUN FOR YOUR LIFE! - FROM JUNKIE TO IRONMAN), de Adnan Köse
- COVER BOY, de Carmine Amoroso
- CSNY / DÉJÀ VU, de Neil Young- DEIXA ELA ENTRAR, de Tomas Alfredson
- DESIERTO ADENTRO, de Rodrigo Plá
- DESIERTO SUR, de Shawn Garry
- DEUS HOMEM CACHORRO (LIO LANG SHENG GO REN/), de Singing Chen
- DIAS E NOITES, de Beto Souza
- DOCE DE COCO, de Penna Filho
- DUSKA, de Jos Stelling
- É DURO SER AMADO POR CRETINOS (C´EST DUR D´ETRE AIME PAR DES CONS), de Daniel Leconte
- EL CAMINO, de Ishtar Yasin
- EL CIELO, LA TIERRA Y LA LLUVIA, de José Luis Torres Leiva
- EL GRECO, de Iannis Smaragdis
- EL PAÍS DEL DIABLO, de Andrés Di Tella
- ENCARNACIÓN, de Anahí Berneri
- ENCONTRO ÀS CEGAS (BLIND DATE), de Stanley Tucci
- ENEMIGOS INTIMOS, de Fernando Sariñana
- ESTOU VIVA (SONO VIVA), de Dino Gentili, Filippo Gentili
- EU QUERO VER (JE VEUX VOIR), de Khalil Joreige, Joana Hadjithomas
- EU SOU PORQUE NÓS SOMOS (I AM BECAUSE WE ARE), de Nathan Rissman
- FAVELA BOLADA, de Leandro HBL
- FELIZ NATAL, de Selton Mello
- FUERA DE CARTA, de Nacho Velilla
- GARAPA, de José Padilha
- GASOLINA, de Julio Hernández Cordón
- GOMORRA (GOMORRAH), de Matteo Garrone
- HANAMI – CEREJEIRAS EM FLOR (KIRSCHBLÜTEN – HANAMI), de Doris Dörrie
- HOMEM DE VENTO (WIND MAN), de Khuat Akhmetov
- HORAS DE VERÃO (L' HEURE D\'ÉTÉ), de Olivier Assayas
- HUNABKÚ, de Pablo César
- ICE, de Makoto Kobayashi
- IL DIVO, de Paolo Sorrentino
- JESÚS FRANCO MANERA DE VIVIR, de Kike Mesa
- JODHAA AKBAR, de Ashutosh Gowariker
- JULGAMENTO, de Leonel Vieira
- JUVENTUDE, de Domingos Oliveira
- KATYN, de Andrzej Wajda
- KHAMSA, de Karim Dridi
- KINOGAMMA PART 1: EAST, de Siegfried
- KINOGAMMA PART 2: FAR EAST, de Siegfried
- LA BOHEME, de Robert Dornhelm
- LA BUENA VIDA, de Andrés Wood
- LA RABIA, de Albertina Carri
- LEITE (SÜT), de Semih Kaplanoglu
- LIÇÕES PARTICULARES (ELÈVE LIBRE), de Joachim Lafosse
- LIVERPOOL, de Lisandro Alonso
- LOKAS, de Gonzalo Justiniano
- LOKI - ARNALDO BAPTISTA, de Paulo Henrique Fontenelle
- LOS DEMONIOS DEL EDEN, de Alejandra Islas
- LOVE LIFE, de Maria Schrader
- LUBER ALOFT (LÜBER IN DER LUFT), de Anna-Lydia Florin
- LUCIO, de Aitor Arregi, Jose Maria Goenaga
- MADE IN ITALY, de Stephane Giusti
- MADE IN L.A., de Almudena Carracedo
- MAIS TARDE VOCÊ ENTENDERÁ (PLUS TARD TU COMPRENDRAS), de Amos Gitai
- MAKSUARA - CREPÚSCULO DOS DEUSES, de Neville D\'Almeida, Tamur Aimara
- MÁNCORA, de Ricardo de Montreuil
- MANDA O DIABO PARA O INFERNO (PRAY THE DEVIL BACK TO HELL), de Gini Reticker
- MATARAM A IRMÃ DOROTHY (THEY KILLED SISTER DOROTHY), de Daniel Junge
- MAUI BOYZ (MAUI BOYZ HAWAIIAN SUP\'PA MEN), de Carsten Maaz
- MAX PAYNE, de John Moore
- MELANCHOLIA, de Lav Diaz
- MELODIAS DA PRIMAVERA (MÄRZMELODIE), de Martin Walz
- MEU WINNIPEG (MY WINNIPEG), de Guy Maddin
- MIL ANOS DE ORAÇÕES (A THOUSAND YEARS OF GOOD PRAYERS), de Wayne Wang
- NASCIDOS EM 68 (NES EN 68), de Olivier Ducastel, Jacques Martineau
- NATAL BAGUNÇADO (MEINE SCHÖNE BESCHERUNG), de Vanessa Jopp
- NATUREZA ANTERIOR (DIE NATUR VOR UNS), de Niels Bolbrinker
- NINGUÉM É PERFEITO (NOBODY´S PERFECT), de Niko von Glasow
- NINHO VAZIO (EL NIDO VACÍO), de Daniel Burman
- NUCINGEN HAUS, de Raoul Ruiz
- NUVEM 9 (WOLKE 9), de Andreas Dresen
- O AGENTE (THE AGENT), de Lesley Manning
- O CANTO DOS PÁSSAROS (EL CANT DELS OCELLS), de Albert Serra
- O CASAMENTO DE RACHEL (RACHEL GETTING MARRIED), de Jonathan Demme
- O DIA DEPOIS DA PAZ (THE DAY AFTER PEACE), de Jeremy Gilley
- O FIM DA POBREZA? (THE END OF POVERTY?), de Philippe Diaz
- O MENINO DO PIJAMA LISTRADO (THE BOY IN THE STRIPED PYJAMAS), de Mark Herman
- O OCULTO (THE HIDE), de Marek Losey
- O OUTRO LADO DE ISTAMBUL (DAS ANDERE ISTANBUL), de Döndü Kilic
- O PEQUENO CHEFÃO GREGO (PROTI FORA NONOS), de Olga Malea
- O PRIMEIRO A CHEGAR (LE PREMIER VENU), de Jacques Doillon
- O ROQUEIRO (THE ROCKER), de Peter Cattaneo
- O SILÊNCIO DE LORNA (LE SILENCE DE LORNA), de Jean-Pierre, Luc Dardenne
- O ÚLTIMO REDUTO (DERNIER MAQUIS), de Rabah Ameur-Zaïmeche
- O’ HORTEN, de Bent Hamer
- O PODEROSO CHEFÃO (THE GODFATHER), de Francis Ford Coppola
- OS AVENTUREIROS (THE TUMBLER), de Marc Gracie
- OSO BLANCO, de Christian Suau, Ramiro Millan
- OURO NEGRO, de Isa Albuquerque
- PACHAMAMA, de Eryk Rocha
- PALAVRA ENCANTADA, de Helena Solberg
- PATTY SMITH – SONHO DE VIDA (PATTI SMITH: DREAM OF LIFE), de Steven Sebring
- PEACE MISSION, de Dorothee Wenner
- POR SUS PROPIOS OJOS, de Liliana Paolinelli
- PRÍNCIPE DA BROADWAY (PRINCE OF BROADWAY), de Sean Baker
- PRISÃO PERPÉTUA (FINE PENA MAI), de Davide Barletti, Lorenzo Conte
- PROCEDIMENTO OPERACIONAL PADRÃO (S.O.P. - STANDARD OPERATING PROCEDURE), de Errol Morris
- PUISQUE NOUS SOMMES NÉS, de Jean-Pierre Duret, Andrea Santana
- PURGATÓRIO, de Roberto Rochín Naya
- QUANDO VOCÊ VIU SEU PAI PELA ÚLTIMA VEZ?, de Anand Tucker
- QUE FAZEMOS AQUI? (WHAT ARE WE DOING HERE?), de Brandon, Nic, Daniel, Tim Klein
- QUEIME DEPOIS DE LER (BURN AFTER READING), de Joel Coen, Ethan Coen
- RADIO CORAZON (RADIO CORAZÓN), de Roberto Artiagoitia
- RAÍZES DE VERÃO (ZIREI KAYITZ), de Hen Lasker
- REBOBINE, POR FAVOR (BE KIND REWIND), de Michel Gondry
- RED, de Trygve Allister Diesen, Lucky McKee
- REVANCHE, de Götz Spielmann - RINHA, de Marcelo Galvão
- RIO CONGELADO (FROZEN RIVER), de Courtney Hunt
- RISCO (RYSA), de Michal Rosa
- ROCKNROLLA - A GRANDE ROUBADA (ROCKNROLLA), de Guy Ritchie
- ROMANCE, de Guel Arraes
- ROUBE UM LÁPIS PARA MIM (STEAL A PENCIL FOR ME), de Michèle Ohayon
- RUAS DA AMARGURA, de Rui Simões
- RUMO A MECA – A JORNADA DE MUHAMMAD ASAD, de Georg Misch
- SE NADA MAIS DER CERTO, de José Eduardo Belmonte
- SEGURANDO AS PONTAS (PINEAPPLE EXPRESS), de David Gordon Green
- SEM QUERER (DE OFRIVILLIGA), de Ruben Östlund
- SENTIDOS À FLOR DA PELE, de Evaldo Mocarzel
- SERBIS, de Brillante Mendoza
- SETE DIAS DOMINGO, de Niels Laupert
- SHAME, de Mohammed Ali Naqvi
- SIDNEY POITIER: UM ESTRANHO EM HOLLYWOOD, de Catherine Arnaud
- SIMPLES MORTAIS, de Mauro Giuntini
- SINÉDOQUE, NOVA IORQUE (SYNECDOCHE, NEW YORK), de Charlie Kaufman
- SÓ DEZ POR CENTO É MENTIRA, de Pedro Cezar
- SOB A MESMA LUA (LA MISMA LUNA), de Patricia Riggen
- SOB AS BOMBAS (SOUS LES BOMBS), de Philippe Aractingi
- SOB CONTROLE (SURVEILLANCE), de Jennifer Lynch
- SOI COWBOY, de Thomas Clay
- SONATA DE TÓQUIO (TOKYO SONATA), de Kiyoshi Kurosawa
- SOUL CARRIAGE (SOUL CARRIAGE), de Conrad Clark
- STEAK, de Quentin Dupieux
- TEMPOS E VENTOS (SOUL CARRIAGE), de Reha Erdem
- TERRA FIRME SOB OS NOSSOS PÉS, de Philip Vogt
- TERRA VERMELHA (BIRDWATCHERS), de Marco Bechis
- TEZA (TEZA), de Haile Gerima
- THE LOVEBIRDS, de Bruno de Almeida
- THE PHOTOGRAPH, de Nan Triveni Achnas
- THREE MONKEYS (ÜÇ MAYMUN), de Nuri Bilge Ceylan
- TIRO CONTRA – REBELIÃO DOS CINEASTAS, de Dominik Wessely, Laurens Straub
- TITÃS – A VIDA ATÉ PARECE UMA FESTA, de Branco Mello, Oscar Rodrigues Alves
- TODO MUNDO TEM PROBLEMAS SEXUAIS, de Domingos Oliveira
- TONY MANERO, de Pablo Larraín
- ÚLTIMA PARADA 174, de Bruno Barreto
- UM CONTO DE NATAL (UN CONTE DE NOEL), de Arnaud Desplechin
- UM HOMEM BOM (GOOD), de Vicente Amorim
- UM LUGAR CHAMADO BRICK LANE (BRICK LANE), de Sarah Gavron
- UM OUTRO PLANETA (ANOTHER PLANET - MÁSIK BOLYGÓ), de Ferenc Moldoványi
- VENGO DE UN AVION QUE CAYO EN LAS MONTAÑAS, de Gonzalo Arijón
- VERÔNICA, de Maurício Farias
- VICKY CRISTINA BARCELONA, de Woody Allen
- VIDA, de Paula Gaitan
- VIDA E MORTE DE HANNAH SENESH, de Roberta Grossman
- VINGANÇA, de Paulo Pons
- VISTA PARA O MAR (SEAVIEW), de Nicky Gogan, Paul Rowley
- WALTZ WITH BASHIR, de Ari Folman
- YOUSSOU NDOUR: I BRING WHAT I LOVE, de Elizabeth Chai Vasarhelyi
- ZEBRA CROSSINGS, de Sam Holland

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

A Esquiva: cinema e política


"A imagem é uma criação pura do espírito, ela não pode nascer duma comparação, mas da aproximação de duas realidades distantes. Quanto mais longínquas e justas forem as relações que se estabelecem entre essas duas realidades, mais a imagem será forte. Duas realidades que não tenham nenhuma relação não podem ser aproximadas de modo útil […]. Uma imagem não é forte porque é brutal e fantástica, mas porque a associação das ideias é longínqua e justa." Pierre Reverdy, JLG/JLG


Que filme impressionante esse A Esquiva. Pra quem vai ter um primeiro contato com o cinema do franco-tunisiano Abdelattiff Kechiche vai ficar de queixo caído com tamanho realismo que ele consegue imprimir nesse filme, ainda mais em se tratando de um romance adolescente. Impressiona o poder da misé-en-scéne de Kechiche, o frescor e o naturalismo das interpretações, a decupagem, mas sobretudo a maneira formidável com que ele transforma tudo isso em um dos mais ricos painéis políticos da França e da Europa que vejo no cinema em muito tempo. Ainda que tenha sido reproduzido numa cópia em DVD bem capenga, com a fotografia escurecida e a imagem um tanto deformada, ver A Esquiva é uma raríssima oportunidade de vivenciar uma experiência de fruição impecável de imagens, de engajamento, postura ética e fé em seu registro. É justamente dessa aproximação de realidades sugerida por Reverdy na citação acima e muito defendida também por Godard em seus filmes ensaio com o Grupo Vertov, que o filme se sustenta de maneira genial e acima de tudo muito justa e ética, limpa e clara (em um ou dois momentos de maneira até didática) pensando o mundo como reflexo das nossas relações pessoais, aproximando a arte da realidade, das pessoas, do complexo emaranhado político entre países europeus e africanos, num filme que respira o tempo todo o frescor da adolescência, das paixões, das dúvidas, da (in)comunicabilidade... nos fornecendo belos registros/documentos/metáforas do cotidiano.

Preâmbulo.

Relutei durante algum tempo na criação desse blog. Sempre fui meio preguiçoso pra essas coisas, mas agora, com a aproximação da Mostra SP de Cinema e minha já confirmada ida pra lá, me senti meio que compelido a botar quente aqui, até pra servir como válvula de escape pra uma maratona de cerca de 30 filmes durante 10 dias. Enquanto a Mostra não chega, já vou amaciando os dedos postando alguns comentários sobre a Mostra de Cinema Francês promovida pela Aliança Francesa lá no Cine Ouro!

O evento traz filmes inéditos por aqui, de cineastas em sua maioria com decendência africana e que retratam basicamente o cotidiano desses imigrantes na França. Dentro dessa abordagem, se destacam Abdelattif Kechiche, prêmio especial do júri e melhor atriz no Festival de Veneza do ano passado com o excelente O Segredo do Grão, e Rabah Ameur-Zaimèche cineasta que vem despertando grande interesse da crítica.

Do Kechiche será apresentado seu filme anterior, A Esquiva, vencedor de 5 César incluindo melhor filme e diretor em 2004 e que eu ainda não vi. Do Zaiméche serão os 2 primeiros filmes de uma trilogia sobre trabalhadores africanos na França, que começa com Wesh Wesh, o que foi?, seguido por Povoado Number One. Trilogia se encerra com O Último Reduto, seu último filme, recém-lançado e integrante do Festival do Rio deste ano e possivelmente da Mostra SP também.

Mostra do Cinefrance começa hoje com A Esquiva.

Aproveito pra tentar dar uma olhada na estréia da semana aqui do novo filme do Claude Chabrol, Uma Garota Divida em Dois. Chabrol é mestre e apesar de seu último filme, A Comédia do Poder ser bem meia-boca, sua filmografia é sempre de muito interesse, afinal o cara fez coisas geniais como Nas Garras do Vício, O Açougueiro, Mulheres Diabólicas... ou seja, não é pouca coisa não!

Então fica dada a largada a esse pequeno blog que vai bombar de atualizações nos próximos dias.

Veremos!